14 novembro 2011

Cineclubes viram boa pedida

Com o fim do Cine Academia (o cinema pegou fogo em maio do ano passado) (1*), o sucateamento do Cine Brasília, o fechamento do Embracine (2*) e as poucas exibições nos cinemas dos shoppings, poucas são as oportunidades que os cinéfilos tem hoje em Brasília de assistir filmes que estão fora do circuito comercial. Mas não se pode ficar parado. Prevendo o mau agouro, o Centro Cultural Banco do Brasil tem organizado mostras com filmes inéditos na cidade, mas que já passaram pelo menos pelas salas das grandes cidades, como Rio de Janeiro e São Paulo.

Outra opção têm sido os cineclubes (3*). Desde setembro, funciona na Universidade de Brasília (UnB), mais precisamente no Memorial Darcy Ribeiro (inaugurado em dezembro do ano passado), apelidado de Beijódromo, o Cineclube Beijoca. Todo mês acontece uma mostra, que traz três vertentes diferentes de filmes: inéditos em Brasília, produções independentes ou comerciais médias e de nacionalidades diferentes.

O cineclube nasceu da uma vontade conjunta de alunos e professores da universidade e dos organizadores do Memorial Darcy Ribeiro. A ideia é transformar o local em um grande espaço cultural. “Nós queremos trazer uma programação permanente para a cidade, seja de dança, música, teatro ou cinema. Vai ser ótimo para Brasília!”, disse o coordenador de programação do Memorial, Walter Brizola. Nos planos está inclusive, um café, em parceria com o Bistrô Bom Demais. “Ele deve se chamar Darcy Bom Demais”, contou Brizola animado.

Mesmo tendo acesso um pouco complicado, já que é difícil ir de ônibus a UnB, o cineclube está conquistando um público fiel. “As sessões tem cerca de 50 pessoas, às vezes mais ou menos”, conta Raquel Rodrigues, professora do Departamento de Filosofia. No último sábado, o frio assustou um pouco as pessoas, mas pelo menos 30 compareceram para assistir O Cão de Andaluz e O Fantasma da liberdade, ambos de Buñel. Gabriela Lafetá, 38 anos, doutorando em Filosofia e Literatura, ficou sabendo do cineclube por acaso e aproveitou para conhecê-lo. “Brasília não tem mais cinema, quando se tem uma oportunidadezinha é bom aproveitar”, relatou. 

Depois dos filmes é realizado um debate com convidados, o que é uma característica importante dos cineclubes. Na sessão do  dia 15, esteve por lá o professor de cinema e mídas digitais e coordenador do cineclube de IESB, Ciro Marcondes, que explica como um cineclube pode sobreviver: “Com a pouca opção de filmes de arte na cidade, os cineclubes se transforam no reduto da cinefilia e para tirar as pessoas de casa você tem que oferecer mais do que a exibição de um filme. É preciso ter um ciclo de palestras e uma programação atraente”.

Hospedado no Núcleo de Extensão da UnB, em Brazlândia, o cineclube Espaço Aberto está há três anos levando uma programação diferenciada para a cidade, que mesmo com 78 anos de idade e 53mil habitantes não tem nenhum cinema ou teatro. Mas ainda é difícil levar a comunidade ao local. “A maioria do público é de estudantes. São poucas as pessoas da comunidade que vão ao cineclube, mas temos um público cativo. O desafio hoje é fazer com que essas pessoas participem. Dentre as ações que estamos formatando está a exibição em locais públicos, como praças”, explica o realizador cinematográfico Antônio Balbino, um dos idealizadores do projeto.

Mesmo com esses paliativos, ainda é pequena a esperança que se abre. Está prevista para o dia 30 de outubro, a reinauguração dos cinema do shopping Casa Park, agora nas mãos do Espaço Unibanco. São oitos salas, que terão suporte para exibir filmes em 3D, som digital e bilheteria informatizada. Outra esperança é a reforma do Cine Brasília, que deve ser finalizada até a Copa de 2014, segundo o Governo do Distrito Federal.

Outros cineclubes também funcionam na UnB. Organizado pelo Programa de Educação Tutorial em Ciência Política (PET/POL), o CinePO se realiza todas às quintas-feiras, ao meio-dia e traz filmes com uma temática política. Às sextas-feiras, a Faculdade de Comunicação apresenta sempre às 13h, o CineFac e também às sextas, mas às 19h, os alunos Leonardo Tavares, Mariana Carvalho e Rafael Rezende se juntam para o Cineclubida, no Instituto das Artes. “Nós estamos fazendo o cinclube há um mês e começou da vontade de ver filmes com os amigos. Como estávamos meio tímidos, já que no nosso curso quase não se ensina cinema, vamos começar a divulgar o cineclube agora”. Para ter mais informações, você pode entrar no blog cineclubida.blogspot.com e ficar por dentro da programação.


Saiba mais:

1* Em 3 de maio de 2010, três salas do Cine Aademia pegaram fogo, depois que um cola inflamável entrou em combustão na Sala 8, que estava em reforma. Depois do incêndio, que foi controlado sem haver vítimas, o cinema foi desativado e Brasília perdeu um dos pouco redutos do cinema de arte.

2* A rede Embracine ficava no Shopping Casa Park e parou de funcionar em 27 de maio de 2011. Segundo o Casa Park, o Grupo Estação, responsável pelo cinema, estava sem pagar o em pagar o aluguel desde 2009 e a briga que era interna virou judicial.

3* Entre os cineclubes mais atuantes de Brasília estão Cineclube dos Bancários (Teatro dos Bancários, 314/315 Sul; 3262-9021), que funciona às segundas, sempre às 20h; Cineclube Iesb (Auditório do Iesb, 613/14 sul; 3448-9800), com sessões às quintas-feiras, às 11h e CineCal (Auditório da Casa da América Latina (SCS, Q.4. Ed. Anápolis), às quartas e quintas, às 12h30.


Povo fala:

“O fato de ter menos filmes bons em cartaz, tem se refletido nas minha idas ao cinema. Eu mesmo assisti Melancolia no Rio. Estou mudando para lá no final do ano e espero ver muitos filmes por lá!”
Kaio Felipe Mendes, 21 anos, 8° semestre de Ciências Políticas

“Eu morava em Salvador e lá tinha um cinema com programação apenas cultural. Então, estou sentindo muita falta disso aqui. Tenho baixado filmes, principalmente os antigos. Adoro Bertolucci, Bergman e Antonioni”
Tamara Vaz, 19 anos, 1° semestre de economia

“Eu gosto muito de fazer esse ritual de ir ao cinema. É uma coisa que eu aprendi a gostar, mas agora está complicado. Tenho ido mais nas mostras do CCBB.”
Igor Cerqueira, 19 anos, 6° semestre de Comunicação em Audiovisual


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