06 maio 2011

Entrevista - Tulipa Ruiz

Tuliap Ruiz_Nina Quintana

Tulipa Ruiz nasceu em São Paulo, mas passou parte da infância e adolescência morando numa cidade do interior de Minas Gerais, São Lourenço. No meio de muita natureza, ela e o irmão Gustavo se divertiam bastante. 

Talvez seja daí também que nasceu a vontade de desenhar e ir meio que contra o movimento natural da casa, a música. O pai, Luiz Chagas é jornalista cultural e músico, e o irmão Gustavo Ruiz virou instrumentista. 

Essas são, claro, as influências óbvias. O pai, por exemplo, sempre passava os discos que recebia para resenhar para os filhos, mas uma loja de discos, em que Tulipa trabalhou dos 17 aos 19 anos também a ajudou na formação musical da cantora. 

A moça demorou um pouco para iniciar a cantar e compor. “Comecei a fazer música fora de casa, muito no receio do meu pai e irmão não gostarem. Mas era um receio muito meu, na verdade meu pai me incentiva muito”, explica Tulipa. 

Ela colocou algumas canções no Myspace e chamou tanta atenção, que acabou por gravar um CD, o “Efêmera”. O disco apareceu em várias listas de Melhores de 2010 e foi eleito pela Rolling Stone o melhor lançamento do ano passado.


Além de fazer parte da brincadeira/banda Novos Paulistas, a cantora acumula convite para tocar no Rock in Rio com a Nação Zumbi e uma pequena turnê na Europa. Ela esteve em Brasília em dois shows lotados, em janeiro, pelo projeto Sai da Rede e volta para tocar no Teatro Oi Brasília, hoje e amanhã, às 21h. Os ingressos custam R$ 25. 

Conversamos com Tulipa por telefone sobre tudo isso e mais um pouco. Confira a entrevista: 

My Favorite Way: Vamos começar com influências, já que toda entrevista começa assim. Você trabalhou numa loja de discos quando morava em São Lourenço. Como essa experiência ajudou na sua formação musical? 

Tulipa Ruiz: Eu trabalhei lá dos 17 aos 19 anos. Quando essa loja abriu em São Lourenço, eu passava por lá e ficava namorando-a. Pensava: “Um dia ainda vou trabalhar nessa loja”. Resolvi ir lá e pedir emprego, o dono da loja ficou de cara com a minha cara de pau e me contratou. Eu sempre comprava muitos discos e sempre fui apaixonada por capas. E tinha uma coisa engraçada. Fora da loja havia uma estrutura onde a gente colocava os 10 discos mais vendidos e eu acabava colocando os 10 que eu mais gostava. Ás vezes, a gente nem tinha vendido nenhum daqueles e quando alguém chegava na loja para comprar algum presente, geralmente levava o primeiro mais vendido. E poderia até ser de uma banda de São Lourenço mesmo, que nós não tínhamos vendido nenhum. Assim, eu acabei vendendo discos que não saíam. (Risos) 

MFW: Você acabou fomentando a cena da cidade. 
Tulipa Ruiz: Isso. 

MFW: Quando escuto “A Ordem das árvores”, não consigo dissociar da sua vida em São Lourenço. A cidade também é uma influência? 

Tulipa Ruiz: Absolutamente. A cena de São Lourenço é muito rica, embora pouco divulgada. Tem muitos músicos e pouco incentivo. Foi lá que eu comecei a sair e ter contato com música acústica nos bares e as festas sempre tinham música também. Então, foi muito importante. 

MFW:Para fechar essa parte de influências musicais, como que é essa interação música/desenho?

Tulipa Ruiz: Sempre gostei de capas de disco e me inspirei nisso. Eu achava que desenhar capas de disco era a profissão mais bacana da face da Terra. Eu passei a pensar na imagem para cada tipo de som. O show é bem assim. Tem projeções de desenhos meus... 

MFW: E você está conciliando sua vida de cantora e de ilustradora ou a música já tomou conta?

Tulipa Ruiz: As duas andam juntas, mas estou na maior parte do tempo com a música. No final dos shows tem gravuras minhas para vender, tem camiseta. E rolou uma coisa legal. Quando eu toquei no Rio, uma moça viu o show e me chamou para ilustrar um livro infantil. Eu vou receber a boneca semana que vem para pensar nos desenhos. 

MFW: E o seu pai? Foi ele quem fez a letra de “Sushi” para você, né? 

Tulipa Ruiz: Meu pai é uma grande influência. Ele sempre me incentivou, mas eu tinha um receio, não sei, de não agrada-los. Ele e o meu irmão, Gustavo, que também é músico. Por isso eu fui fazer música fora de casa primeiro, para depois mostrar para eles. No caso de “Sushi”, nós fizemos o caminho ao contrário, porque ele é o músico, né? Então, a ordem natural seria ele fazer a música e eu a letra, mas dessa vez eu fiz a música e disse: “Você tem 2 horas para me passar uma letra para essa música” e ele me entregou. Ele foi muito fiel à melodia e a temática. Foi uma obra do acaso e deu certo. 

MFW: Você acabou de voltar de uma pequena turnê na Europa (Tulipa foi fazer a promoção do CD, que acaba de ser lançado pela Totolo, que já lançou Orquestra Imperial e Wilson das Neves na Europa). A pergunta que a gente sempre faz é: Como foi a receptividade lá? 

Tulipa Ruiz: Foi muito interessante. Fomos eu e o Gustavo fazer um show voz e violão. Então eu fiquei meio insegura, meio que pensando que as minhas músicas estavam peladas, sabe? Mas a cada show tinha mais gente e os brasileiros sabiam cantar as músicas. Nós tivemos boas críticas, até de quem não sabia a língua. Saiu uma crítica muito boa no Guardian (jornal londrino). Nós queremos voltar de novo, levando a banda inteira para fazer um show completo. 

MFW: O show que você fez aqui em Brasília teve casa lotada nos dois dias. Você esperava isso ou nem sabia que tinha um público desse aqui em Brasília?

Tulipa Ruiz: Não imaginava, não fazia nem ideia. Ainda fico surpreendida com o fato do disco chegar antes da gente, mas tenho que me acostumar. Quando eu fiquei sabendo que o show tinha lotado, brinquei via Twitter: “E se rolasse um show extra?”. E as pessoas foram pedindo. Daí o pessoal da produção me ligou dizendo: “Não, a gente vai fazer um show extra sim”. Foi super legal! Foi a primeira que nós fizemos dois shows seguidos. 

MFW: E o convite para o Rock in Rio? Você já tinha tocado antes com a Nação Zumbi? Já conhecia algum deles.

Tulipa Ruiz: Foi fantástico! Gosto muito da Nação, sempre acompanhei a carreira deles. Escutava programa de rádio, tenho todos os CDs. E como eles moram aqui em São Paulo, a gente sempre se cruza. O Pupilo me convidou para gravar uma canção do projeto dele, o 3namassa... 


MFW: Mas você não cantou nesse último disco deles não, né? (interrompendo)
Tulipa Ruiz: Não. É do CD novo que eles estão gravando. Então, a gente estava em contato nesses últimos tempos. 

MFW: Quando que sai o videoclipe (Tulipa gravou o videoclipe da música “Sushi”, com direção da Leandra Leal)?

Tulipa Ruiz: Ele está bem no finalzinho, logo mais ele sai. Talvez no próximo semestre. 

MFW: Você não pensa em lançar o disco em vinil? Talvez com um trabalho seu de ilustração. Um livro, por exemplo? 

Tulipa Ruiz: Vinil com certeza! Devo pensar nisso também para o segundo semestre. Quando eu fiz o disco, já pensava em lançá-lo em vinil. 

MFW: Para finalizar, eu li numa entrevista sua em que você dizia que às vezes é inevitável, mas “tudo acaba em amor”. E a maioria das suas músicas, ou das músicas do mundo de uma forma ou de outra falam sobre amor. Num próximo disco, algo que você deve está pensando bem mais para frente, teremos uma Tulipa mais “ácida” ou política? 

Tulipa Ruiz: Eu não faço ideia! (Risos) Falar de amor é uma coisa inevitável. Ás vezes a gente quer escrever uma música sobre outra coisa, mas acaba entrando nesse tema. Mas eu gosto de exercícios para fazer músicas diferentes. Talvez eu passe um dia desenhando e faça uma música sobre esses desenhos depois. Ou passe o dia assistindo noticiário para fazer uma música de protesto. Não sei como vai ser.

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