01 outubro 2010

Entrevista - Lucy and the Popsonics

Encheu, mas nem tanto e algumas pessoas foram embora quando a banda começou a tocar. Fato que só reafirma o que Fernanda Popsonic comentou na entrevista abaixo, o Lucy tem mais público fora de Brasília e do Brasil, do que aqui. O show em questão era o de lançamento do segundo disco da banda, o Fred Astaire, nome dado em homenagem ao dançarino norte-americano. Também há de se dar um desconto já que o grupo subiu ao palco quase às 3h e mesmo sendo sábado, abandonar o barco para dormir é sempre uma boa pedida. (Veja as fotos do show aqui)

Ao vivo, o som agora ganhou mais peso, mais representatividade. Tudo por conta da bateria de Beto Cavani (ex-Suíte Super Luxo), que agora com Pil e Fernanda faz parte do Lucy and the Popsonics. Isso não quer dizer, é claro, que o grupo esqueceu as batidas eletrônicas que o fizeram famoso. Elas estão mais do que presentes.

O Lucy cresceu musicalmente e tem uma mãozinha de um cara chamado John Ulhoa (Pato Fu), que produziu o disco junto com os demais integrantes da banda. Ele botou Fernanda para fazer aulas de canto e ainda mostrou um monte de hardwares novos para fazer um som bacana. Até os viciou em sorvete!

Extrovertida como sempre, a Popsonic brincou com o público e até mandou um: “Olha, a gente vai vender o disco aqui do lado. Não vamos ser hipócritas, eu baixo disco pra c*r*lh*! Mas quem quiser ajudar é R$ 20! Além de dinheiro, você também pode pagar com 10 cheques de R$ 2!”. Foi com ela que conversamos sobre o grupo, sobre o namoro, hoje casamento com Pil, sobre a carreira, o futuro e sobre o novo disco.


Fernanda, Pil e Beto ou os Popsonics

My Favorite Way: Vocês preparam este novo disco com uma bateria eletrônica. Agora como é esse som que com uma baterista de verdade? Como rolou o convite para o Beto Cavani (ex-integrante da Suíte Super Luxo)?

Fernanda: A gente já tinha muita vontade de começar a tocar com baterista. Assistimos muitos shows no exterior com bandas que não tinham baterista como a gente, mas quando entrava uma com baterista fazia muita diferença sonora. Era uma coisa que batia, sei lá! Pintou a vontade e pronto. O Beto entrou por meio de uma seleção. Ele se destacou bastante. Ele é experiente e viciado em tocar bateria. Além disso, baterista é o bicho mais complicado do mundo, o Beto não é. Ele tá curtindo tocar com a gente. Por enquanto é isso. A coisa tá rolando.

MFW: Vocês começaram a banda em 2005, quando ainda eram namorados. Casaram há pouco tempo (ano passado, certo?), como é conciliar essa vida de rock e casal?

Fernanda: Muita coisa mudou. Para a nossa música ficou mais fácil, mas a gente caiu naquela de ter uma casa para sustentar, fazer compras no supermercado, etc. Antes de casar, não faltava papel higiênico em casa. Descobri que essas coisas não nascem em árvores. Hehe! Por outro lado, você assiste o filme que quer, a hora que quer, come o que quer. Fizemos mil festas, jantares e somos bem espalhafatosos com isso. Ficamos mais próximos, mais íntimos. Já cuidávamos um do outro e agora parece que houve uma fusão de nossos corpos. Nosso “schedule” envolve uma atenção especial com nossos corações. Com relação a música a gente tem outros projetos para dar andamento como o “Parallel Lines” (não o disco do Blondie), esse é nosso projeto com um amigo de NY. Queremos fazer muita música ainda. Essa é a nossa vida. Temos além do nosso amor pelo outro, amor eterno a música. Estamos a cada dia que passa mais conectados com a música e de uma forma pura. Ah, quase ia esquecendo. Começamos a namorar por causa da música. Então…

MFW: Consideram o som de vocês “roqueiro”? Ou é pop e ponto? Já que a mistura é de punk com eletrônico.

Fernanda: Acho que essas definições são coisas do passado, coisa de velho mesmo, em outras palavras. Aqui em casa toca reagge, ragga, rock, eletrônico, samba, MPB, tudo! Qualquer coisa é bem vinda, basta ser música de qualidade.

O que fazemos é uma mistura. Foi engraçado ir para a Europa e as pessoas nos identificarem como brasileiros, porque nossa forma de cantar lembra um pouco a MPB. Sinceramente, acho que ninguém no Brasil pensa isso da gente e nem a gente da gente mesmo (essa foi difícil), enfim… Somos uma mistura de tudo que ouvimos.

Para aqueles que insistem demais a gente diz que é “rock eletrônico indie”. Só para pararem de perguntar.

MFW: Em 2007, li uma matéria perguntando se o Lucy and the Popsonics seria o novo hype daquele ano. E eu pergunto: como enxergam a carreira da banda hoje, lançando o segundo CD e ainda tendo tocado na Europa, EUA e ainda em vários festivais pelo Brasil? E aqui em Brasília, como é a receptividade do púlico?

Fernanda: Vamos ser sinceros. Essa história do hype é uma grande furada. Estávamos no olho do furacão na época, uns 4 anos atrás. O CSS e o Bonde (do Role) eram muito famosos e estávamos realmente aguardando viradas das bandas independentes. O sentimento que algo ia acontecer era geral, partia de todos os lados. Olhando de longe, o independente brasileiro é insustentável por si só ainda. E estamos longe do que acontece no mercado médio no exterior. O Brasil não gosta do novo, como acontece na Inglaterra, por exemplo. Todo mundo faz revival de músicas do passado para vender e ponto. E se faz isso com apoio de gravadoras que precisam pagar os salários do próximo mês.

Estávamos na Fnac um dia desses para tocar e entre a passagem de som e o show fiquei olhando os discos. Bom, o que o Brasil se interessa é por sertanejo, forró e Roberto Carlos. Não tem muito para onde correr. Macaco Bong é massa pra caralho, eu amo, mas nunca se apresentarão num Faustão da vida. Quando eu olho para trás, o rock já foi pop no Brasil. Meus pais cantarolavam Legião Urbana. O Brasil estava na euforia de ser jovem e tocar rock. Meus pais já foram de certa forma roqueiros e meu pai usava um visual disco. Inclusive já falei para ele que se ele passasse na minha frente na época eu ia namorá-lo. Hahaha!

Hoje é chique gostar de porcarias nacionais, infelizmente e ainda batem no peito dizendo que se precisa valorizar o nacional a qualquer custo, mas quando vão ao show de alguém é para pegação, beijação, etc. Não se há respeito pela arte, como vimos acontecer fora do Brasil, o que é uma pena.

Vejo-me fora disso. Prefiro fazer música que eu gosto, mesmo que não receba nada em troca. Optamos por cantar em português, mas não acho que venderei milhares de discos por aí. O que queremos é continuar a tocar e compor até morrer. A música faz sentido na minha vida. Este ano eu tive a pior depressão da minha vida inteira e foi o Lucy And The Popsonics e as aulas de canto que me salvaram. É isso que farei sempre, acho.

Sobre nosso público em Brasília não sei a quantas andam. Espero que o show esteja cheio como dizem que será, mas se tiver uma pessoa apenas faremos como se tivesse um milhão. O que importa afinal de contas para as pessoas que querem nos ver? Um show e é isso que faremos naquele palco.

MFW: O que dá para esperar desse novo disco “Fred Astaire”? O John Ulhoa (que produziu o álbum) falou que ele está mais potente que “A Fábula (ou a farsa?) de dois eletropandas e diz que ele teve um upgrande. Qual foi esse up? Como o Gollo e o Farret participaram (produtores do primeiro disco)?

Fernanda: Eu acho que o artista que não busca produtor ou um mentor, diríamos assim, está se limitando de conhecimentos extraordinários. É como você entrar na faculdade, mas não ter mentores para mostrar o que seria interessante você buscar. As coisas mais importantes na produção do disco é a experiência, o seu aprendizado musical… É um olhar externo que quando você está envolvido demais deixa passar os detalhes que fariam toda uma diferença. O que rola também é que você se coloca na posição de ter que repensar algo que parecia estar bom. Come on! Produzir não é tocar nem compor, muito menos apenas gravar. Está além disso. Você chega com uma demo e o produtor te ensina a ler a música, timbrar, usar técnicas para fazer algo que você não deu conta de fazer sozinho e te coloca para gravar em um estúdio de verdade, onde você tem todo o aparato necessário para fazer um negócio mais potente do que se você fizesse em casa.

Uma coisa que aprendemos na época do primeiro disco é que a música fala por si só. Você não tem muito o controle sobre o que ela pede. Aí entra a criatividade de usar aquilo que ela pede de uma maneira mais interessante.

O Zé e o Rafa foram mais que nossos produtores do primeiro disco, são nossos amigos. Trocamos músicas, experiências de vida, musicais e por causa deles viramos experts em alguns harwares por aí. Eles mudaram muito nossa vida, assim como aconteceu com o John.

O John nos mostrou inovações de softwares, fez-me aprender técnicas vocais interessantes, mostrou-nos timbres legais. Com seu conhecimento de engenharia de som nos ensinou os limites dos sons e nos viciou em sorvetes!

Pense nos melhores discos da sua vida e veja se algum deles não teve participação de um produtor foda! Todos os meus preferidos tiveram. A Björk, que para mim é a melhor cantora do mundo, já foi produzida pelo Timbaland. Essa coisa de fazer tudo sozinho é tupiniquim e coisa para inglês ver, a não ser que você já tenha se tornado um Brian Eno da vida.

Falei tudo isso porque sinceramente vejo no Brasil uma coisa bem boba com relação a isso. Para você ter algum respeito você deve escrever músicas tristes, mesmo que você não seja triste, e compor no máximo voz e violão porque se tiver tecnologia deixa ser música, como já ouvimos algumas vezes, de músicos ortodoxos, claro.

MFW: De uma conversa no aeroporto, para uma no Rec-Beat e em seguida a produção do CD. Se não fosse com o John, teria algum outro estúdio ou produtor à vista?

Fernanda: Fizemos o possível e o impossível para que ele nos produzisse desde que ele se mostrou interessado na proposta. Somos fãs há muitos anos do Pato Fu. Eu já fugi de casa para assisti-los algumas vezes na minha adolescência. E estar do lado deles era algo inimaginável até o dia que caiu a ficha que estávamos alí, muito perto. Era uma coisa que não poderíamos deixar de escapar e rolou, graças a nossa persistência e a disposição do John, claro. Mas, se nada disso tivesse rolado, provavelmente teríamos sido produzido por alguém do Hip Hop ou DJ de música eletrônica roots, visto que estávamos mais que nunca numa onda muito Kraut.

Capa de Fred Astaire, segundo disco do grupo

MFW: E a estética do novo álbum? Quem é o responsável pela parte gráfica?

Fernanda: Zé Otávio. Ele é um artista de São Paulo do qual sempre fomos muito fãs. Aliás, ele ainda me deve um autógrafo no nosso disco. Hahaha! Sério, quando terminamos o disco eu falei pro Pil que tínhamos que conversar com o Zeh e daí cruzamos os dedos.


MFW: Vocês já tiveram a oportunidade de fazer uma turnê pela França e talvez até em outros países. Por que não fizeram? Não dá para viver de música no Brasil?

Fernanda: Nós fizemos mais de 200 shows no exterior. Não dá para viver no Brasil com o som que fazemos, é fato. Não nos mudamos do Brasil porque optamos por ter qualidade de vida e manter nosso casamento em um ambiente estável. Tocar é uma delícia e é muito foda, mas a estrada é muito hardcore e não é para qualquer um. Não é a toa que se não for pelo dinheiro, muitas bandas não sobrevivem. É um mundo realmente muito difícil. Queremos ser saudáveis, ter uma vida, sabe? Quando você está na estrada você às vezes se depara com a situação de ter de escolher entre dormir, comer ou tomar banho. Você faz em ordem do que mais te incomoda no momento. Não é a toa que muitas pessoas, muitas mesmo, jogam-se às drogas. É desumano.

Quantos shows você se depara com uma banda cansada? Não são poucas. O público acha que você está de pouco caso, mas a verdade é que aquele cara do palco às vezes queria apenas tirar um cochilo respeitável, tomar um banho ou comer uma vez bem naquele dia.

Teve uma tour de 40 dias que fizemos em 2008. Todos os shows foram fodas demais, mas teve um dia que eu sentei no chão cansada de carregar instrumentos e malas e comecei simplesmente a chorar de cansaço. O Pil sentou do meu lado e falou: “Calma Fer, faltam apenas mais 10 dias”. Hahaha!

O que pretendemos é viver bem, comer bem, cuidar da nossa vida, escutar muita música, ler muitos livros, ver muitos filmes, sermos felizes, saudáveis e fazer música até cansarmos.

MFW: Nos shows, você geralmente está com roupas bem diferentes. No Porão de 2008, por exemplo, era uma coisa meio intergaláctica, um prateado bem chamativo. Você escolhe suas roupas? As compra ou faz os seus figurinos? Quão ligada em moda você é?

Fernanda: Eu e o Pil gostamos de moda. O Pil gosta de um tipo específico de moda que é camisetas. Ele tem lojas (ele é um dos donos do Verdurão, uma das lojas de camisetas mais conceituadas de Brasília) para se divertir com isso e eu vivo usando coisas que ele faz. Estou prestes a fazer um curso de costura como terapia. Moda para mim é tão arte quanto a música. Eu gosto de usar roupas diferentes, fazer maquiagens diferentes. Eu era daquelas meninas que pegavam as coisas da mãe e calçava sapatos altos com uma maquiagem bem forte. Hahaha! Eu mesma faço minha maquiagem, escolho minhas roupas, algumas eu rasgo e recosturo, etc. Eu ganho algumas coisas. Tenho amigas que trabalham com moda. Uma das minhas madrinhas de casamento estuda moda em Paris e de vez em quando me manda coisas. Gosto de estilistas novos e comprometidos com a estética. Esses são poucos no Brasil. Eu gostaria de ter mais talento para isso, mas não é muito o meu caso. Venho de uma família de costureiras. Minha bizavô antes de morrer não enxergava, mas colocava a linha na agulha e costurava coisas legais para minhas bonecas. Minha avô era uma costureira famosa e ela costurava tudo para mim até uma certa idade. Tenho orgulho dos meus ascendentes e profunda admiração por tecidos. Até hoje quando vejo minhas fotos super pequena eu ainda me sinto super fashion. Hehehe!

Entrevista publicada originalmente no site Bloody Pop.

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