10 setembro 2010

Entrevista - Watson

Watson_Rodrigo Dalcin




Sempre tive uma grande curiosidade sobre de onde vinha o nome da banda brasiliense Watson. Para quem não sabe, o grupo começou em 2002 com o um trio e o curioso nome: “Watson e o progresso da ciência”. Não soa como um desenho animado ou um filme infantil?
A verdade é que ele surgiu por um acaso, de um amigo de Miguel (vocal e guitarra), Jack (bateria) e Adriano (baixo) que tinha mania de inventar nomes malucos de bandas e como o Watson já fazia parte da vida dos meninos... Ficou! O nome ganhou uma música e depois virou o nome do grupo. O grupo fez outras músicas, começou a se apresentar por Brasília e chamou bastante atenção após a gravação de “Eu quero envelhecer” por Beto Só, numa coletânea organizada pelo programa Cult 22, onde artistas da cidade escolhiam canções de artistas daqui para fazer uma versão. Estava consolidado o começo da carreira do Watson.

Em 2006, eles tiveram a adição de um novo integrante. Filipe Viana entrou como guitarrista e dois anos depois participou da gravação do EP Lei Seca, o primeiro bem gravado e lançado pelo Senhor F. Depois de tanto tempo estava na hora do Watson lançar o seu álbum cheio. Ele chegou este ano e ganhou um lançamento especial em um dos centros comerciais mais antigos e tradicionais de Brasília, o Conic, tudo com entrada franca. Hoje meio abandonado estruturalmente (de noite o local é ponto de sexo fácil e drogas), porém cheio de vida. Ele acolhe as melhores lojas de camisetas da cidade e ainda a Faculdade Dulcina de Moraes.

A banda toca pela segunda vez no Porão do Rock e estão uma das atrações do Palco Chilli Beans, dedicada aos estilos indie e alternativo. Conversamos com o vocalista, Miguel Martins sobre o grupo, disco, os próximos passos do Watson e o Porão, que será neste sábado (mais conhecido como amanhã), dia 11 de setembro.


My favorite Way: No começo, o grupo tinha o extenso nome “Watson e o progresso da ciência”, quando e por que vocês resolveram reduzi-lo? Foi apenas para ficar mais fácil lembrar da banda ou isso tem a ver com um novo conceito de vocês? O que mudou?

Miguel Martins: Quando a gente se chamava "Watson e o progresso da ciência", a última coisa que a gente perseguia era um conceito. Era tudo bem maluco mesmo, do nome às musicas. Tinha funk, ska, blues, indie, Beatles, de tudo um pouco. Era uma banda de colégio mesmo, o nome deixava isso claro. Watson era o jeito que chamavam a gente, os Watsons, e como cansamos de ouvir “como é que é?” depois de dizermos o nome da banda, acabamos ficando com Watson mesmo por comodidade. É só um nome qualquer, e acho que o melhor nome de banda é aquele que menos empurra um conceito para as pessoas, nome conceitual só dá musica ruim. Claro que temos uns problemas com isso, o pessoal fica achando que a gente se chama “Banda Watson”, tipo “Banda Eva”, por causa das redes sociais, do nosso site... mas faz parte.

MFW: O primeiro disco do Watson saiu apenas 08 anos depois da criação da banda, enquanto isso vocês lançaram Eps. Entre eles está o Lei Seca (2008), que teve uma forcinha do selo Senhor F. Você acha que é importante esse período de maturação entre a criação e o primeiro disco de um grupo?

Miguel Martins: No nosso caso, acho que sim. Você ouve o disco do Tiro Williams e pensa: “Poxa, os caras gravaram um ótimo disco em pouquíssimo tempo de banda”. Por que com o Watson não foi assim? Acho que tanto pela nossa completa despretensão no início, como também pela evolução das possibilidades de se gravar em casa, com um bom equipamento, com estrutura barata. Nosso primeiro EP foi gravado em placa soundblaster, que você comprava na feirinha pra melhorar o som do Doom ou do Quake. Não tinha como ser muito bom, ou pelo menos atraente, mas sempre foi na raça. Na tentativa e erro. A gente realmente descobriu-se melhor quando o Filipe entrou, antes éramos um powertrio com várias limitações, e a partir do Lei da Seca passamos a entender bem melhor a musica que a gente podia fazer. E como já tínhamos gravado tudo caseiramente, pensar em um primeiro disco dessa forma não era atraente, queríamos fazer num estúdio mesmo, rolou muita pré-produção. Mas é impressionante o que se pode conquistar hoje com o homestudio. O Gustavo Bill, produtor do Lei da Seca e do Tiro Williams, é uma prova disso.

MFW: O Lei Seca foi o Ep definitivo para o disco Watson. Mas quando foi que vocês pararam e perceberam que o Watson (o grupo) tinha que ir para este e não para aquele lado? Por que, por exemplo, o Lei Seca e o disco tem as canções mais trabalhadas, vamos dizer assim, e com as letras mais interessantes.

Miguel Martins: Ah, acho que vem da maturidade mesmo. Quando você é adolescente, você pode até acertar, mas você erra muito mais que acerta. A gente acertou algumas na adolescência, não tanto o formato, mas algumas músicas eram boas. A banda teve momentos difíceis em 2007, quase acabou, mas daí eu compus o Lei da Seca e todo mundo comprou muito as músicas. Foi um renascimento da banda mesmo, tínhamos organizado melhor nossas influências, mas continuávamos a ter uma cara própria.

MFW: O lançamento do disco foi em um dia memorável para Brasília, pois levou indies e alternativos para o Conic. De onde surgiu essa idéia para um feriado?

Miguel Martins: Foi uma confluência interessante. Fomos pedir ajuda pro Rafael Oops, da Criolina, pra organizarmos um evento diferente de lançamento, algo ao ar livre. Ele levou a gente na Ossos do Ofício, que fica no Conic, e papo vai, papo vem rolou a sugestão de ser no próprio Conic. Conversamos com a Flavia Portela, prefeita de lá e ela topou. Aí, foi correr atrás de patrocínio, porque queríamos que fosse de graça, montamos um projeto muito bom, com tudo bem planejado e conseguimos. É motivo de orgulho pra banda ter organizado algo para a cidade, no lugar que todo rockeiro de 16 anos chega a frequentar alguma vez na vida, pagando todo mundo igualmente e tentando tirar a cultura do Plano Piloto do óbvio de casas de show e de festinhas em casas do lago sul e lago norte. Brasília tem que ser mais usada, esse concreto todo tem muito potencial cultural, não precisa ser só funcionalismo não.

Show de lançamento no Conic_Alê dos Santos
MFW: O disco saiu oficialmente e tem seu download gratuito no site oficial, mas o CD físico ainda não está nas mãos dos fãs. Quando isso será possível? Ouvi dizer que o show também vai virar DVD. Isso já está certo? Quando será lançado?

Miguel Martins: No Porão vai estar rolando o disco, 15 conto! Digipack bonitinho, com encarte e CD prensado de fábrica, tudo nos conformes. Alguns fãs já tem o disco, alguns até compraram pela Livraria Cultura, gente de Curitiba, Belo Horizonte. Mas agora, em todo show nosso vai estar rolando. E em breve, vamos ter uma loja virtual também. Quanto ao DVD, estamos lançando uma musica por vez no canal do youtube do Watson, vamos lançar a segunda ainda esse mês, mas DVD só no ano que vem mesmo.

MFW: Vem cá, como vocês foram parar em Porto Alegre para gravar Watson? E vocês acham que isso ajuda como cartão e visitas para o disco?

Miguel Martins: A gente já era bem amigo do Gustavo Dreher, que mora em Brasília, produziu um monte de coisa daqui também, Bois, Sapatos Bicolores... E estávamos em São Paulo (eu e o Filipe) e ficamos vendo uns vídeos do Thomas, irmão do Gustavo, explicando as gravações do Júpiter Maçã. Curiosamente, o Gustavo tava em São Paulo, a gente saiu e o Filipe soltou “nosso sonho era gravar em PoA”. E ele respondeu: “Bá, mas é um sonho mais que realizável”. E foi isso. Deu muito certo, os dois juntos são brilhantes, trabalham muito bem, e foi tudo muito simples, natural.

MFW: O conceito disco/banda/música ganhou uma versão gráfica bem interessante. Como essa estética surgiu e a união com o Virgílio Neto?

Miguel Martins: O Virgílio é um gênio. Ele cria mundos visuais com uma facilidade absurda. E ele leu e releu as letras, a gente sabia que ele iria além de uma arte puramente plástica, ele queria que tivesse conteúdo também, que as letras fossem importantes para os desenhos. Ele é de Anápolis, então pra ele Brasília é um prato cheio.A banda queria que Brasília estivesse no disco, não de forma óbvia e caricata, mas como um lugar exótico. Brasília é exótica, a gente mora aqui e esquece disso...

MFW: A banda embora tenha concorrido à Seletivas do Porão do Rock, nunca conseguiu uma vaga. Porém, ano passado vocês foram convidados por também ser uma banda representativa do cenário brasiliense. Como foi recebido esse convite?

Miguel Martins: Muito bem recebido, como não podia deixar de ser. Seletiva é um troço duro, um bando de amigos disputando vagas e sendo obrigados a competir por uma noite;. É um climão! Mas tocar no Porão é completar um certo ciclo na cidade. Toda banda quer. Mas se você faz por onde, é natural. Acabam te chamando.
Cartaz do show para ter idéia dos desenhos do Vírgilio Neto

MFW: O que foi mais importante para vocês como banda: tocar no Palco Pílulas (palco menor não só em tamanho, como em estrutura e atenção do público) do Porão do Rock em 2009 ou tocar no Conic? O que deu mais retorno? Mais visibilidade?

Miguel Martins: Conic. O Porão tem muitas atrações maiores que a gente, o Conic era nosso evento, 500 pessoas a fim de ver você é bem diferente de 1000 apenas de passagem. Mas a experiência do Porão ano passado amadureceu a banda, percebemos alguns erros que cometíamos em shows grandes. Esse ano, estamos bem confiantes de um bom show.

MFW: Vocês estão de volta ao Porão, o que inclusive é meio estranho, já que a produção do evento adora bater na tecla do ineditismo das bandas que traz, e agora vão se apresentar em um palco menor mais uma vez. A diferença é que agora ele é especialmente para as bandas alternativas. Bandas como Mombojó, Patu Fu e She Wants to Revenge passarão por lá. Vocês enxergam isso como uma nova oportunidade para apresentar o trabalho de vocês ou esse é só mais um show pela grana?

Miguel Martins: É uma nova oportunidade, e também uma oportunidade melhor. Festival não dá muita grana pra banda não, o que importa mesmo é a visibilidade, passar uns discos para uma galera que pode ajudar. Quando você faz um festival, quer fazer vários, porque você aprende muito com a diversidade. E dessa vez, vamos poder tocar com o Mombojó, Pato Fu, GOG... É empolgante!

MFW: Agora com o disco, há algum planejamento de shows pelo Brasil ou vocês vão fazer isso através de festivais por exemplo? Tem algum lugar que vocês gostaria de tocar e ainda não tiveram a oportunidade?

Miguel Martins: Tocamos em Campo Grande e Palmas esse ano. Vamos fazer um show em Belo Horizonte dia 10 de outubro, no n’A Obra. Temos festivais de várias regiões em vista. A gente quer tocar em São Paulo, claro, que é uma vitrine importante. Mas se tem um lugar que queremos ir, porque todo mundo elogia muito, é Belém.

MFW: Tá bom, pode parecer estranho porque eu também sou de Brasília, mas como é ser uma banda daqui? Tem espaço para tocar? O público é interessado? Você não acha que falta um lugar para revelar novas bandas? Por que, por exemplo, aqui nós não temos um Indie Festival, como Minas e São Paulo.

Miguel Martins: Não temos mesmo.Ou é o Porão ou é showzinho. Eu acho que as bandas vão se articulando melhor aqui em Brasília.Tem uma galera legal do coletivo Bloco, tem as festas semanais, tem iniciativas criativas a todo momento. Um dia, vamos ter um Indie festival. A verdade é que Brasília é muito boa de banda, mas muito deficiente de cena, de articulação. E a culpa é do Watson também e de todos. Acho que nós ficamos olhando muito para o horizonte aqui, admirando o tempo passar. Todo mundo acaba virando amigo, não tem porque não articular coisas novas. Sou otimista com Brasília.

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