13 agosto 2010

Entrevista - Lulina

Lulina

“Hoje é sexta-feira, 13 de agosto, o mês do Cachorro Louco!” é assim que canta Celso Blues Boy em uma de suas músicas. A sexta-feira 13 também foi a inspiração que Lulina, uma pernambucana que migrou para São Paulo há 4 anos. Ano passado, a moça resolveu fazer um disco especial com a colaboração de você, internauta. Era simples, a cada dia 13 você mandava uma frase e ela transformava em uma canção. A idéia inicial era lançar exatamente hoje, mas não rolou: “Não conseguimos finalizar as 3 últimas músicas”, diz Lulina um pouco desapontada.

O disco se chamará Meus dias 13 e agora não tem data certa para sair: “Talvez eu deixe para lançar em dezembro. Daí vira um disquinho Natalino”, revela Lulina.

A simpática reficense, que foi criada em Olinda e conheceu alguns de seus ídolos em uma viagem a Glasgow, a cidade escocesa que revelou bandas como o Franz Ferdinand, respondeu por e-mail uma entrevista para o My Favorite Way e ainda aguentou a minha pentelhação via Gtalk. Tudo porque o seu primeiro disco cheio, Cristalina, veio parar na minha mão.

O mundo lúdico criado por Lulina, ou Lulilândia, é cheio ETs, minhocas, com bichinhos que te ajudam a dormir e príncipe encantado nada usual entraram na pauta do dia, o resultado desta entrevista você pode conferir abaixo.

My Favorite Way: Lulina queria começar te perguntando de onde vem o seu nome?
Lulina: O nome é um apelido que surgiu na novela do “Clichê”, um jornalzinho que a gente fazia na faculdade e que tirava sarro de todo mundo. Meu nome é Luciana Lins, meu apelido era Lulins e no jornalzinho a personagem inspirada em mim se chamava Lulina. Quando fui convidada para fazer meu primeiro show em Recife, a minha banda nem tinha nome ainda. Aí comentei com o Mad, grande amigo da faculdade e ele sugeriu: “Por que não coloca Lulina e os Pnins?”. E assim começou.

MFW: Dizem por aí, que um CD deve ter no máximo 13 músicas, para que ele seja perfeito. O seu primeiro disco, Cristalina tem 18. Como foi a escolha para essas canções?

Lulina: O Cristalina é uma compilação dos melhores momentos dos meus primeiros 6 anos de composições. Fazer uma seleção foi muito difícil e não conseguimos cortar mais canções do que isso. Eu queria ter lançado o disco com 13 músicas, até porque eu curto o número 13, mas sempre que tentava cortar algumas rolava um simpático quebra pau com a banda e os produtores, pois ninguém queria abrir mão das suas preferidas. Aí deixei com 18, sem me preocupar com esses padrões do que é perfeito ou o que é melhor para um disco.

MFW: Por falar nisso, você tem uma história, digamos, engraçada com a música. Foi numa tarde chuvosa, na casa de um namorado, que você resolveu trabalhar nisso pela primeira vez. Mas tenho certeza que esse desejo devia estar guardado há tempos em você. Qual foi a sua primeira experiência com a música?

Lulina: A minha mãe me lembrou esses dias de algo que eu já havia esquecido. Aos 9 anos eu tinha uma "banda" com meu irmão e meu vizinho. A gente construía os próprios instrumentos (guitarras de madeira que a gente pintava e que não saía som que prestasse e bateria feita com latas de leite ninho). Naquele tempo a gente já gostava de compor. Acho que minhas primeiras experiências com música foram ali e na escola, onde eu gostava de inventar canções para decorar os assuntos mais difíceis. Até hoje sei, por exemplo, quais são os óxidos anfóteros por causa de uma canção. As gravações caseiras começaram por acaso, como uma brincadeira, quando eu tinha 22 anos. Mas as músicas gravadas já existiam há anos. Componho (arranhando um violão) desde os 15.

MFW: Eu vejo em suas canções muitas referências de outras bandas. Pode parecer loucura minha, mas acho “Subtexto” muito parecida com “About A Girl” do Nirvana. Mas só os primeiros acordes. Uma banda que faz isso muito bem e não tem medo de dizer é o Patu Fu. Você também não tem problemas com isso, ou essa coincidência que eu apontei é só mesmo uma coincidência?

Lulina: Eu sou uma pessoa de pouco conhecimento musical, tanto em termos de referências, quanto em termos de estudo (sou autodidata). E gosto de ser assim, porque fico mais livre para compor a minha visão, sem me preocupar em estar fazendo algo manjado na estrutura. Mesmo nesse contexto, é claro que acontece de se notar uma influência, até porque aprendi a tocar violão tirando os acordes de revistinhas com canções de Raul Seixas, Ramones e até Nirvana. Então, na hora de compor, o que eu conhecia eram aqueles acordes e rolavam algumas sequências parecidas. O começo de “Subtexto (que é de 2002) realmente parece “About a girl” e eu adoro isso. Para mim soa mais como homenagem, porque quando começo a cantar, a canção é outra, completamente diferente em harmonia e na sequência de acordes. Mas, cá entre nós, essa combinação de mi menor e sol do começo de “Subtexto” é uma das mais manjadas do mundo, existem mais de um milhão de músicas assim.

MFW: Li na Revista O Grito! um texto que você fez especialmente para eles sobre a pequena turnê nos Estados Unidos. Você falou do carinho do público, que mesmo sem entender uma só palavra lhe recebeu muito bem. Como foi o começo aqui no Brasil, especialmente em São Paulo, lugar onde você mora
hoje. Você ganhou o mesmo carinho? Como era a receptividade do público?

Lulina: O começo em São Paulo foi maravilhoso. Meu primeiro show, armado por amigos, lotou a Genercis, saudoso e pequenino espaço de shows na Vila Madalena. O público indie paulistano é muito receptivo e curioso, gosta de prestigiar coisas novas. Tocávamos em lugares pequeninos e a turma que nos acompanhava – hoje grandes amigos meus – era fiel e cantava junto, pedia disquinhos caseiros, incentivava demais.
Capa de "Cristalina"

MFW: Nas suas músicas você fala muito de sono, de dormir, sonhar. Quão importante é isso na sua vida? Você é daquelas pessoas que se sente “sonhando acordada”?

Lulina: As músicas do Cristalina que falam de sono/sonho fazem parte do Cochilândia, um disco caseiro lançado em 2002 que é só sobre essa temática. Como o Cristalina é uma compilação, várias músicas do Cochilândia fazem parte do disco e é por isso que essa temática vem a tona novamente. Mas, digamos que essa FOI uma temática importante naquela época, em Olinda. Hoje em dia, a realidade está bem mais presente e muita coisa do que tenho composto nos últimos anos está mais voltada para o que está fora de mim e a minha visão de tudo isso.

MFW: Embora você tenha uma música como “Meu Príncipe”, que é meio machista ou feminista. Em outras letras, você consegue ser bem doce. Você se considera uma pessoa romântica?

Lulina: Acho que ninguém é uma coisa só. O equilíbrio é bem melhor do que ser doce ao extremo ou ácida ao extremo. Digamos que sou uma romântica pé-no-chão.

MFW: O encarte do seu disco, ao invés de ter as letras das músicas tem suas explicações, que estão relacionadas à “Lulilândia”. Então a pergunta é, de onde veio essa tal “Lulilândia”? Também há um mapa desse lugar, que é entre Olinda e Glasgow. Qual a sua ligação com essas duas cidades? 

Lulina: A Lulilândia nada mais é do que a minha cabeça e a minha história musical. O apelido surgiu de amigos, que zoavam a minha visão inocente de mundo nos meus primeiros anos em São Paulo, como se eu vivesse nessa cidade própria. Como Cristalina é uma compilação, nada mais verdadeiro do que assumir essa cidade e mostrar no mapa toda a minha história musical, que começou com os caseiros em 2001. O mapa está repleto de referências a diversas canções e sacaneia vários amigos. A referência a Olinda, obviamente é por causa da minha origem. Digo que sou olindense de formação porque, apesar de ter nascido em Recife, morei muitos anos em Olinda e adoro essa cidade. Foi lá que comecei a compor e gravar. Glasgow entra na história como uma homenagem musical. Gosto muito das bandas de lá e visitei a cidade com meus amigos da Open Field Church alguns anos atrás, onde tive a oportunidade de conhecer e trocar idéia com membros do Belle and Sebastian, Pastels e Franz Ferdinand (o Nick, guitarrista do Franz, até nos deu abrigo por alguns dias em seu apartamento). Foram semanas muito especiais e a música daquele lugar marcou minha vida por muitos anos. Então, Glasgow também não podia faltar no mapa.

Sangue de ET? (Ariel Martini)
MPW: Para finalizar, eu não posso deixar de perguntar. E os Ets?

Lulina: Os ETs são apenas mais uma metáfora para fuga da realidade (ou busca de uma nova realidade). Sou uma cética que se permite sonhar, que adoraria que eles existissem mas que não acredita em nada do que sai por aí sobre eles. Gosto muito de física e astronomia, gosto de buscar uma visão humilde de nossa existência. Acreditar que somos os únicos inteligentes no universo soa tão pretensioso quanto a teoria geocêntrica, quando acreditávamos que éramos o centro do universo. Mas evidências dessa existência, infelizmente ainda não temos. É por isso que os ETs são para mim apenas uma metáfora de que pode existir um mundo melhor lá fora, com valores mais evoluídos do que os que temos aqui hoje.