10 agosto 2010

Entrevista - Apanhador Só

Apanhador Só


Conta a lenda que o nome Apanhador Só veio de uma fusão entre o título do livro O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D Salinger e da música “Marinheiro Só”, de Caetano Veloso. Pelo menos é o que contam os integrantes da banda gaúcha, recém indicada ao VMB, quando lhe perguntam a origem desse tal “Apanhador Só”. Mas a verdade é que nem eles mesmos sabem, pois Marcelo Souto, que o inventou saiu da banda e não contou para ninguém.

O que se sabe com certeza é que nos últimos 4 anos o grupo criou grande expectativa com os EPs Embrulho pra Levar (2006) e Apanhador Só (2008), criando um bom espaço pare seu primeiro álbum cheio ressoar. O álbum foi lançado em abril em CD (dono de uma bela capa e trabalho gráfico assinado por Rafael Rocha, editor da Revista Noize) e download no site oficial da banda.

Conversarmos com o vocalista do Apanhador Só, Alexandre Kumpinski sobre essas e outras coisas que envolvem a vida de uma banda, principalmente, independente.

My Favorite Way: Li que a banda já existe desde os tempos de colégio, quando vocês ainda tinham seus 15 anos, pelo menos o esboço dela já estava nas garagens. Mas qual foi o ponto em que a coisa ficou séria e vocês pensaram: “Agora nós somos uma banda!”. A gravação do primeiro EP, Embrulho pra Levar (2006) tem alguma coisa com isso?

Alexandre Kumpinski: Sim. Foi justamente o Embrulho pra Levar que nos levou a acreditar que tínhamos uma banda de fato. Foi a partir dele que começamos a fazer mais shows, com algum público nosso. Também teve o lance da internet, do Trama Virtual, que tava no auge, e de várias possibilidades alternativas de divulgação da nossa música. Ali, entendemos que não precisávamos assinar contrato com uma grande gravadora ou cair nas graças de algum produtor mágico que faria tudo dar "certo" no final pra existir dignamente.

MFW: Como foi esse começo? Porto Alegre é um bom lugar para bandas que estão começando? E o público? Costuma aceitar coisas novas?

Alexandre Kumpinski: Não sei direito o que seria um lugar bom pra bandas que estão começando. Acho até que esse lugar não existe (risos). O começo de uma banda é extremamente difícil de se entender e de se lidar com. Primeiro tu se junta com uns amigos numa garagem e tenta conseguir tocar alguma coisa decente. Os primeiros ensaios são muito ruins. Tu pensa em desistir e ir andar de skate ou fazer qualquer outra coisa mais divertida. Mas algo te faz continuar. Então tu passa a tocar melhor, teus amigos passam a conseguir te escutar. Então tu passa a compor tuas próprias músicas quando não aguenta mais tocar covers e depois passa a querer fazer shows pela cidade. Só que ninguém na cidade te conhece e por isso mesmo ninguém vai querer marcar show contigo. Sem show, as pessoas vão continuar não te conhecendo. É um ciclo que parece não ter solução, mas algo te faz continuar. Aí tu batalha pra gravar um EP, implora pra que alguém ouça aquilo, algumas pessoas passam a curtir, tu consegue um show aqui, outro lá, e basicamente só os amigos vão. Tu passa por mil perrengues, mil desastres e tenta se divertir ao máximo no meio disso tudo, porque, afinal de contas, algo te faz continuar. Aos poucos (e não sei explicar como) as coisas vão mudando, melhorando. E tu segue continuando.

MFW: Houve uma grande expectativa para o primeiro disco de vocês, devido o pequeno/grande sucesso dos EPs. Grande parte das músicas do disco já foram lançadas neles, como foi a escolha das músicas? O CD teve apóio da prefeitura de Porto Alegre, como que rolou essa parceria?

Alexandre Kumpinski: O financiamento do Fumproarte (Fundo Municipal de Apoio à Produção Artística e Cultural de Porto Alegre) se consegue através de edital. Tu tem que fazer cronogramas, orçamentos, justificativas etc. É bem trabalhoso, mas vale muito a pena, depois que tu consegue ganhar. Foi esse financiamento que nos permitiu gravar um disco com um bom produtor (Marcelo Fruet) se dedicando ao máximo, num estúdio legal, com um projeto gráfico bem cuidado (pelo Rafa Rocha, com cards ilustrados pelo Fabiano Gummo) e tal e coisa e coisa e tal. Daí que a escolha das músicas foi um pouco pautada por esse lance, porque pra conseguir o financiamento, a gente usou o Embrulho pra Levar como demo pro disco, então teoricamente todas as músicas do Embrulho deveriam ser regravadas. No final, a gente entrou com um pedido e conseguimos trocar algumas músicas por músicas novas que a gente queria gravar mais.

MFW: O download gratuito possibilitou que várias pessoas baixassem o debut de vocês. De onde veio essa idéia?

Alexandre Kumpinski: A gente sempre disponibilizou o material da banda gratuitamente na internet. Essa idéia é totalmente presente pra essa nova geração de bandas, que se valeu da internet pra conseguir existir de alguma forma. O Embrulho mesmo já tava todo lá no Trama Virtual disponível pra download ( Nota da Redação - Na verdade não está mais), e mesmo assim a gente vendia os disquinhos nos shows. Só o que mudou agora é que fizemos o nosso próprio site pra disponibilizar o material em alta qualidade e com todo o projeto gráfico incluído. E tu tá certa: isso possibilita que várias pessoas conheçam a banda. Ninguém vai comprar disco de uma banda que não conhece. Então colocamos pra download gratuito e não custa nada pra alguém baixar e conhecer. E se essa pessoa gostar, vai ir em show, vai passar a ser público. E é isso que a gente quer: que as pessoas conheçam nosso trabalho.

MFW: Vocês são uma das bandas elogiadas por saber usar bem as mídias digitais para divulgação. Qual a dica que vocês podem dar para as bandas novas?

Alexandre Kumpinski: Acho que com tantas bandas às vezes você pode se perder nesse vasto mundo que é a internet. Imagino que bandas novas sejam integradas por pessoas mais novas do que a gente e que devem saber usar melhor a internet do que nós, então dar dicas aqui pode ser muito arriscado. De qualquer forma, acho que tá acabando esse lance de ser ou se sentir um rock star. A internet veio dar voz à quem não tinha opção além de se deixar emudecer. E isso não só pra artistas, mas também pra jornalistas, público e todos os envolvidos. Unificou a galera, sabe? Então assim: se tu faz parte dessa galera, então aja de acordo.

MFW: Os primeiros EPs não tiverem nenhum produtor, certo? Ficou tudo por conta de vocês. Como um produtor pode influenciar o trabalho de uma banda? Como o Marcelo Fruet influenciou vocês?

Alexandre Kumpinski: Na verdade, o Embrulho foi produzido pelo Gude, da Procura-se Quem Fez Isso. A gente gravou no estúdio deles e foi ele que fez as vezes da produção do ep. Claro que com o Fruet foi diferente, porque foi muito melhor planejado. O Fruet nos acompanhou desde a pré-produção do disco, indo nos ensaios, pensando os arranjos junto com a gente. Depois, já em estúdio, o trabalho do Fruet foi sensacional. Ele se preocupa muito em fazer a banda amadurecer musicalmente, além de gravar um bom disco. Ele quer que tu saia do estúdio sabendo realmente tocar o que tu gravou e o porquê de tu ter gravado do jeito que gravou. É um pouco difícil saber exatamente no quê o Fruet nos influenciou, porque desde o início, o trabalho com ele foi muito harmonioso. Mas com certeza ele foi muito importante pro resultado final e durante um tempo a gente não queria nem mesmo ensaiar mais sem ele.

Capa do primeiro disco, Apanhador Só
                                                       
MFW: O Lucas Pocamacha (Superguidis), disse em uma entrevista à TV Trama, que “o disco físico vende sim”. Mesmo com o download, o Apanhador escolheu prensar o primeiro álbum. Como estão as vendas? Há alguma distribuição pelo Brasil? Ou vocês vendem apenas nos shows?

Alexandre Kumpinski: As vendas estão indo bem. A gente prensou 1000 cópias e elas estão quase acabando. De fato, “disco físico vende sim”. Principalmente se tu tem o cuidado de fazer um projeto gráfico legal, com algum diferencial. Porque as pessoas não compram mais disco pra escutar as músicas. Todo mundo já tem os mp3 no computador. As pessoas compram o disco porque querem ter o objeto em casa, porque acham a capa bonita, porque gostaram tanto das músicas que querem tocar naquilo, enfim.

MFW: Além disso, vocês capricharam na arte do álbum. As letras, ao invés de estarem num encarte, estão em cards. Isso veio da cabeça de álbum colecionador de cards da banda? Quem foi o responsável pela arte e cards que acompanham o álbum?

Alexandre Kumpinski: A idéia foi do Rafa Rocha (como já dito lá em cima) e surgiu em reuniões entre eu, ele e o Fabiano Gummo, que foi quem fez as ilustrações dos cards. Fechou muito com a nossa vontade de ter um projeto gráfico diferente pro disco e topamos no ato. Depois veio a idéia também de usar a caligrafia de pessoas que colaboraram de alguma maneira com o disco pra escrever as letras nos cards. Tem gente que acha que a gente usou uma fonte diferente em cada card, mas a verdade é que as caligrafias são de verdade.

MFW: Algum videoclipe em vista?

Alexandre Kumpinski: Sim. Em agosto a gente vai lançar um clipe ao vivo rodado no show de lançamento do disco aqui em Porto Alegre, já aproveitando o momento da indicação ao VMB 2010 na categoria Aposta MTV. Depois pretendemos lançar um outro clipe “de estúdio” mais pro fim do ano.

MFW: Qual foi a emoção ao ver o disco de vocês pela primeira vez?

Alexandre Kumpinski: A emoção não foi exatamente em ver o disco pela primeira vez, porque ele chegou aqui em casa todo desmontado. Primeiro chegaram os CDs, depois chegaram os encartes. A gente que montou tudo separando um card de cada tipo, colocando junto com o CD dentro do encarte, fechando e colocando tudo dentro do envelope. Parece trabalhoso, mas perto do trabalho que a gente tinha carimbando à mão encarte por encarte do Embrulho, é barbadinha.

Mas enfim, a emoção rolou foi quando o caminhão chegou aqui em casa, e os carregadores atiraram as caixas de qualquer jeito na garagem enquanto eu pedia calma e dizia que o trabalho de muito tempo estava ali dentro, que tudo precisava ser tratado com muito carinho e corria de um lado pra outro, não sabendo se eu ajudava a carregar ou se abria as caixas pra ver enfim materializado o produto de tanto tempo de dedicação. Foi um momento mágico.

MFW: Você é o centro das composições. Ele sempre está no meio de alguma música. Como é o processo de composição? Tem alguma coisa definida?

Alexandre Kumpinski: Não tem nada definido. Às vezes uma música surge a partir de uma letra, às vezes a partir de alguns acordes e até mesmo a partir de uma improvisação num ensaio. E as parcerias são numerosas porque quando uma música tá meio empacada, eu peço ajuda pros amigos pra ver se o baile cola.

MFW: As influências de vocês são diversas. Na música “Maria Augusta”, por exemplo, há gradações. Ela começa com um instrumental, vai para o rock e deságua num ar meio circense. Como surgiram essas inserções na música de vocês. Também há vários sons diferentes inventados por vocês.

Alexandre Kumpinski: Normalmente essas nuances e mudanças de arranjo se desenvolvem nos ensaios. Eu mostro uma música nova e a galera sai tocando junto, e quando vê, rola um processo coletivo de criação muito doido, muito espontâneo, que vai gerando essas gradações de que tu falou na pergunta.

MFW: As letras têm bastante trato. Em “Bem me Leve” o eu-lírico é feminino. Acabei lembrando do Chico Buarque. Ele é uma influência? Qual é a história dessa música? Alguma amiga, irmã ou prima que sofreu com relacionamento e ganhou uma música?

Alexandre Kumpinski: Ele é influência, com certeza. Eu meio que aprendi a tocar violão tocando Chico. E durante muito tempo na minha adolescência ele foi um herói pra mim na composição. Enfim, não tenho como dizer com certeza, porque essa música brotou um dia quase pronta, mas o lance do eu-lírico feminino deve ter a ver com ele sim. E ela não foi composta a partir da história de ninguém em especial. Não conscientemente, pelo menos.

MFW: Mesmo com o disco, vocês devem ter algumas sobras de músicas. Já dá para pensar em outro disco?

Alexandre Kumpinski: Sim. Já estamos tocando músicas novas nos shows e, somando a elas músicas que a gente ainda não gravou. Já temos quase um segundo disco cheio. Só que gravar esse disco ainda não está nos nossos planos. Temos muito o que trabalhar em cima desse primeiro. Quem sabe um single daqui a pouco.

Entrevista originalmente publicada no Bloody Pop.

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