18 dezembro 2009

Entrevista - Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta


A Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta nasceu em 2003, quando Ronei Jorge resolveu montar uma banda e foi chamando a galera para participar. Edson Rosa (guitarra e vocal), Sérgio Kopinski (baixo e vocal) e Maurício Pedrão (bateria) aceitaram o convite e estão até hoje com na banda, que lançou este ano o seu segundo disco “Frasco Comprimidos Compressas”. A banda conseguiu ganhar o edital do programa Petrobras Cultural e o álbum teve uma produção mais elaborada. Além de disco físico, a banda resolveu disponibilizar o álbum para download gratuito no site oficial da banda. O primeiro disco, que é homônimo, saiu em 2005 e como toda banda independente teve seus problemas. Para falar sobre esse novo lançamento e um pouco sobre a banda, conversamos com Ronei. Confira:

Drops Cultural: Ronei, a banda nasceu a partir de você. Neste último disco, Frascos Comprimidos Compressas (2009), por exemplo, as letras são todas suas (com exceção de “Circule seu Sangue”). A Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta não poderiam ser encarados como um projeto seu, que acabou por ser tornar uma banda?
Ronei Jorge: Na verdade, as letras e músicas são minhas, com exceção de “Circule seu Sangue” que letra é minha e a música é uma parceria com Edson Rosa. Isso acontece desde a primeira banda que tive. Sempre tive o papel de levar a canção pronta (letra, melodia e harmonia) pra que depois a banda fizesse o arranjo. É uma prática mais comum do que se imagina. Assim foi com os Beatles, Roxy Music, Pink Floyd, Los Hermanos e etc… Acho que é um projeto conjunto de um compositor e uma banda, é a junção dos dois.

Drops Cultural: Como surgiu o convite dos outros integrantes?
Ronei Jorge: Eu já conhecia Pedrão. Chamei ele pela afinidade musical. Edson tocava com Pedrão numa banda de música brasileira instrumental. Pedrão chamou Edinho e tínhamos que arranjar um baixista. Sérgio foi o único que não conhecíamos, até porque ele era o único que não tocava no mesmo circuito de bandas.

Drops Cultural: Em 2005, o grupo lançou um disco homônimo. Por que só agora, 04 anos depois, saiu o segundo?
Ronei Jorge: Basicamente porque banda independente não tem grana disponível pra gravar todo ano. Acabou sendo bom, porque demos uma amadurecida no repertório, nos arranjos e nas canções.

Drops Cultural: Vocês acabaram provando a “glória” de lançar um disco com incentivo da Petrobras. Mas conta para gente as dificuldades de se gravar um bom disco, como vocês fizeram com o primeiro. E mesmo com as facilidades de hoje, o que está uma banda querendo gravar um disco pode esperar pela frente?
Ronei Jorge: A gente teve uma oportunidade incrível de poder gravar o primeiro disco com Luiz Brasil. Ele se entregou ao projeto totalmente. Tivemos que tirar do bolso pra fazer o disco e contar com o apoio de Luiz e de alguns amigos. Acho que o artista independente tem que buscar alternativas para poder gravar, enfim, registrar o seu trabalho. A alternativa para a gravação do segundo CD foi fazer o projeto para o Petrobras de música. Com a conquista do edital, pudemos chamar Pedro Sá para produzir e gravar em melhores condições, com mais tempo de estúdio. Mas mesmo com o Petrobras contamos com a colaboração de todos, inclusive do próprio Pedro Sá. Para viabilizar o próximo passo temos que pensar em outra alternativa.

Drops Cultural: Muita gente sempre pergunta se nessa era digital vale mesmo a pena lançar um disco físico. Já que o álbum se tornou apenas um cartão de visitas. Quais os prós e os contras que você aponta em um lançamento físico?
Ronei Jorge: Não vejo nada que seja ruim em lançar o disco. Acho que continua sendo o melhor registro de um trabalho, o mais fiel em termo de som. Geralmente, o som disponibilizado na internet não é tão bom quanto o do disco. Outra coisa que dança também é a ordem das faixas, coisa que acho muito interessante no formato físico. Nem sempre um trabalho funciona com faixas separadas. Tem a arte, a relação tátil, o fato de ir pra loja comprar o disco. Olha, até virar o lado de disco eu gosto. Dito isto, admito que, com a internet, o mundo se abriu, as pessoas passaram a ouvir muito mais coisa, o trabalho do artista pode chegar nos lugares com muito mais velocidade, ele pode apresentar o seu trabalho com mais facilidade.

Drops Cultural: O Forgotten Boy pensou certa vez em fazer o álbum e dar de presente uma mídia para as pessoas baixarem o disco no site deles. Queria saber o que passou pela cabeça de vocês para divulgar este novo álbum. Ou vocês preferiram mesmo fazer da forma tradicional?
Ronei Jorge: Eu acho que pra a gente foi bom fazer as duas coisas: disponibilizar o disco na internet e ter o disco físico. Acho que um não anula o outro. Tem gente que gosta do disco com capa, encarte, fica atento a quem tocou o quê, quem compôs tal musica. Tem gente que só quer ter a música, que não se importa com outra informação. Depende do freguês. Eu gosto de pensar em capa, em encarte, ordem das músicas, gosto de saber quem toca o quê em cada faixa, quem são as participações especiais, quem fez a arte, ler as letras, pegar no disco. Isso faz parte de minha cultura de consumidor de música e aprendi muito com isso, mas é geracional, hoje já é diferente. Não é melhor nem pior, é diferente.

Drops Cultural: Ronei, você é o compositor principal da banda. Ninguém nunca chegou com uma letrinha para você não?
Ronei Jorge: É o que disse antes. Há um grande equívoco quando se pensa em compositor unicamente como letrista. Compositor faz letra, música e harmonia. A não ser que ele tenha algum parceiro. Nesse caso ele pode ser só letrista, ou só melodista, ou dividir as funções, fazer só a harmonia…
Por exemplo, acabei de participar de um trabalho de trilha para uma peça e três músicas foram criadas a partir de letras produzidas pelos diretores. Eu compus somente a harmonia e melodia.
Eu sempre fiz letra e música, mas nunca impedi que alguém da banda fizesse parte disso. Tanto que incentivo Edson a fazer mais música, pois ele é um ótimo compositor, mas ele não se entusiasma tanto. Agora, eu tenho parcerias fora da banda. Fiz mu sica com Paquito (compositor soteropolitano), Lucas Santtana, Adalberto Filho (do Numismata) e Luizão Pereira (Dois em Um). Acho que o pessoal da banda gosta do que eu faço e prefere deixar assim.

Drops Cultural: E na hora de compor a música? Os meninos participam ou os ladrões são responsáveis mesmo pelo show?
Ronei Jorge: O processo é o seguinte:
Eu vou ao estúdio com o violão e toco a música que fiz em casa: letra, melodia e harmonia. Eles ouvem e começam a fazer os arranjos, decidem sobre: andamento, introdução, solos, dinâmica, compassos, convenções… Todos nós participamos dos arranjos, inclusive dando pitaco no instrumento do outro. Esse é o nosso método, mas tem banda que o cara vai com um texto na mão, a banda toca alguma coisa e o cara sai cantando.

Drops Cultural: Vocês estão numa safra muito boa de músicos de Salvador e conseguiram tirar aquele estigma de que “Bahia só tem axé”. Embora vários músicos tenham provado que isso é mentira. Hoje, como está a cena independente de Salvador?
Ronei Jorge: O cenário musical de Salvador sempre foi muito rico. Ele ficou um pouco obscurecido com a indústria da Axé Music, que conseguiu se expandir e acabou se formalizando como “música baiana”. Ficou uma coisa meio folclórica e turística, não que no meio da Axé Music não tenha coisa boa. Tem muita coisa boa que foi enquadrada nesse rótulo. Mas de qualquer forma, esse rótulo aprisionou a Bahia em um formato.Logo aqui, que teve um cara dos primórdios do Rock e ótimo artista, Raul Seixas; uma banda de rock das mais populares, Camisa de Vênus; e quatro dos mais conhecidos caras da música popular brasileira: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Dorival Caymmi e João Gilberto. Isso sem falar em Novos Baianos, Tom Zé, Gal Costa, Bethânia... Aqui sempre foi diversificado. Teve banda de Hard Rock boa, como a Úteros em Fúria, a melhor banda de psichobiilie que eu já ouvi, Dead Billies, a banda indie Brincando de Deus, a banda pop Penélope. Hoje tem Cascadura, Retrofoguetes, Orquestra Rumpillez, Baiana System, Mariella Santiago etc… Como todo estado brasileiro, rola uma diversidade muito grande.

Drops Cultural: Percebi que “Frascos Comprimidos Compressas” tem muitas músicas que falam de amor. Coisa que acontece com outra banda que já entrevistamos aqui no Drops Cultural, a Transmissor, com sua “Sociedade do Crivo Mútuo”. Porém, a música que dá nome ao disco foi a que mais me chamou atenção. Você pode contar a história dela?
Ronei Jorge: Ela é uma música que fala de relacionamento. Acho que o disco fala mais de relacionamento do que de amor. Essa letra fala um pouco da busca por uma resposta sentimental rápida, da urgência em se sentir correspondido.

Drops Cultural: Como foi a escolha de “Vidinha” para o single?
Ronei Jorge: Nós não escolhemos “Vidinha” para single. A música que tem tocado na rádio daqui é “Você sabe dessas coisas”.

Drops Cultural: Para finalizar, onde foram tiradas as fotos que compõem o encarte de “Frascos Comprimidos Compressas”?
Ronei Jorge: No apartamento de um conhecido de Oske, o fotógrafo. Ele colheu algumas imagens depois de tirar fotos da gente dentro de um apartamento de um amigo.

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