09 novembro 2009

Entrevista - Macaco Bong


Quem acompanha a cena independente brasileira já deve ter ouvido falar do Macaco Bong. Eles provavelmente já tocaram em algum festival na sua cidade. A banda cuiabana tem se destacado muito nestes dois últimos anos. Depois de ter seu primeiro disco, “Artista Igual Pedreiro” (monstro Discos/Fora do Eixo Discos-2008), eleito o “Melhor de 2008” pela Rolling Stone Brasil, a banda ganhou ainda mais projeção. Recentemente, esteve entre as indicadas de “Melhor Banda Instrumental”, do VMB 2009, mas perdeu para o Pata de Elefante.

A banda foi escalada para tocar em um dos maiores e (em tão pouco tempo) respeitados festivais de São Paulo, o Planeta Terra, no palco principal. No mesmo dia ainda tocaram Primal Scream, Sonic Youth e Iggy Pop&The Stooges. Para falar um pouco sobre como estão os preparativos para o show além de coisas futuras, conversamos, via e-mail, com o baixista da banda, Ney Hugo. Os outros integrantes da banda são Bruno Kayapy (guitarra) e Ynaiã Benthroldo (bateria).

Drops Cultural: Primeira coisa que eu gostaria de entender é se a banda surgiu antes do coletivo Fora do Eixo? Ou se formou a partir dele?

Ney Hugo: A banda surgiu antes do Fora do Eixo, mas é completamente alinhavada com os princípios do Circuito, como se realmente tivesse surgido posterior a ele. A banda na verdade surgiu a partir do Instituto Cultural Espaço Cubo (MT), um dos fundadores do Circuito Fora do Eixo. Colocando as coisas cronologicamente, o Cubo é de 2001, o Macaco de 2004 e o CFE do final de 2005. O Macaco funciona como um dos programas do Espaço Cubo, atuando através da circulação, realizando oficinas e debates, e também nos setores de trabalho do Cubo e do CFE, comunicação, sonorização, distribuição e agenciamento. E também na prestação de serviço aos festivais da Abrafin.

Drops Cultural: A banda tinha um quarto elemento em 2004, bem no seu início. O que aconteceu com ele? E por que ninguém o substituiu.

Ney Hugo: Na verdade foram dois elementos que estavam no início da banda que não estão mais. O guitarrista Michael Sauder e o baixista Éverson Pink. Em 2005, os mesmos integrantes do Macaco Bong formavam a cozinha do Donalua, outra banda que atuava como um programa do Espaço Cubo e que teve suas atividades encerradas nesse mesmo ano. Nessa época esses dois integrantes se desligaram do Espaço Cubo, e consequentemente, das bandas. O Donalua parou e o Macaco Bong tinha um show marcado pro Goiânia Noise – o Fabrício Nobre tinha assistido o quarteto no Festival Calango 2005. Ao mesmo tempo, eu me aproximava cada vez mais do Cubo e fui chamado pra uns testes no Macaco. Quando vimos já tínhamos composto novas músicas, fechado o formato trio e recebemos boas críticas no show do Noise, sendo a terceira banda a se apresentar no primeiro dia.

Drops Cultural: Curiosidade: Como vocês escolhem os nomes das músicas de vocês? Já que elas não têm letras, como nomeá-las?

Ney Hugo: Tem a ver com o que a música representa. O texto não é a única maneira de se transmitir sensações ou intenções. Então músicas como “Fuck You Lady”, “Black’s Fuck”, “Amendoim”… Todas têm lá a sua mensagem. Algumas vezes damos nomes de acordo a situações por que passamos (Noise James = Nós e James), ou uma característica da música (Shift = tudo maiúsculo), e por aí vai…

Drops Cultural: O Macaco Bong tem relativamente pouco tempo de vida e tem alcançado um sucesso nacional muito expressivo. Vocês já tocaram em vários festivais independentes pelo Brasil. Qual deles a receptividade do público foi a melhor? Tem alguma história para contar para a gente?

Ney Hugo: Realmente temos uma receptividade muito bacana por onde passamos e creditamos isso ao rock instrumental, pois ele é acessível pra galera do rock e soa bem pra galera do instrumental. Uma história legal que podemos contar é na ocasião dos shows que fizemos no Festival Pop Montreal, no Canadá. Era divertido as pessoas vindo falar com a gente, tentando falar português, dizendo “vocês são de macaco bom?”. Outra ocasião interessante foi na Virada Cultural de Ribeirão Preto, quando tocamos nós e o Rádio Táxi, no final de tudo o nosso camarim foi “invadido” (com consentimento) por um monte de gente que tinha curtido o show.

Drops Cultural: Vocês também foram convidados para tocar no South by Southwest (SWSX), mas tiveram problemas e não puderam viajar. O que aconteceu? A organização entrou em contato com vocês para uma próxima apresentação por lá?

Ney Hugo: O que aconteceu foi que os EUA negaram o nosso visto. A justificativa deles é que todo não-imigrante é um imigrante em potencial. E nós não temos nenhum vínculo oficial de permanência no Brasil. Não somos casados, não temos filhos, não temos carteira assinada, não fazemos faculdade…. Aí, pronto! Estamos inscritos novamente no SXSW através do Sonicbidz, vamos ver… Dessa vez conta ao nosso favor estarmos filiados ao recentemente criado CNPJ do Espaço Cubo, registrado como associação. E também o fato de estar havendo uma crise lá. Agora eles estão dando visto, querem dólares.

Drops Cultural: Depois do disco de vocês “Artista Igual Pedreiro” ter alcançado o topo na Revista Rolling Stone (o álbum foi escolhido o melhor de 2008), o que mudou na carreira de vocês? Apareceu mais gente interessada na banda? Mais público? Mais convites para shows? Ou não? A revista só firmou uma coisa que já vinha acontecendo com vocês?

Ney Hugo: Um pouco de cada coisa. A revista trouxe à tona um reconhecimento que já vinha se tornando latente no Brasil, o da nova música que vem sendo feita no país, por artistas que buscam a auto-gestão e estão se lixando pras gravadoras. Entendemos inclusive que a RS escolheu o “Artista Igual Pedreiro” como um ícone desse fato. Mas a revista tem um alcance gigantesco, é a maior publicação de música hoje no país. Muita gente que não conhecia a banda passou a conhecer. É inegável o alcance que tem um prêmio importante desse numa revista do alcance da Rolling Stone. A visibilidade da banda sem dúvida aumentou muito.

Drops Cultural: O convite para o Planeta Terra, por exemplo. Como rolou? Já sabemos que o evento chama artistas independentes que tem se destacado na cena. E há alguma coisa de especial nessa apresentação? Alguma surpresa?

Ney Hugo: É bem isso mesmo que você disse. Tanto é que estamos nós e o Móveis Coloniais de Acaju (DF), que citamos como referência no quesito organização e auto- gestão do trabalho. É mais uma prova de como esse modelo de visão e de trabalho vem ocupando cada vez mais espaço no mercado musical brasileiro. Temos algumas surpresinhas nas mãos, umas releituras… Esperamos que o público goste.

Drops Cultural: Depois do resultado do VMB, houve uma descrença na premiação. Mas vocês foram indicados a “Melhor Artista Instrumental”, como vocês veem o resultado?

Ney Hugo: Continuando o ponto da resposta anterior… Os artistas auto-gestores tem criado tanto espaço no mercado musical brasileiro, que até a premiação dita mais importante, o VMB, está criando categorias específicas. Pouca gente imaginou um dia ver categoria instrumental no VMB. Nós ficamos muito satisfeitos com o Pata de Elefante ter vencido o prêmio de Melhor Instrumental, porque nos sentimos representados. A descrença que você se refere às outras categorias é legítimo, visto que ainda são mantidos alguns vícios de mercado, proveniente de grandes gravadoras. Mas estamos (nós, Móveis, Pata) mudando essa realidade. Vamos olhar pra frente.

Drops Cultural: Como foi o ano do Macaco Bong e o que a banda está planejando para o ano que vem, que já está quase no fim? Videoclipes? Eps? Singles?

Ney Hugo: O ano do Macaco foi ótimo. Em 2009 fomos duas vezes à Argentina, conquistamos público por lá, participamos de vários festivais brasileiros, realizamos turnês extensas, sempre se mantendo na rede de trabalho do Circuito Fora do Eixo, atuantes enquanto membros do Espaço Cubo. Para esse ano, ainda gravaremos um videoclipe, ainda agora em novembro. Daremos mais detalhes em breve. Também estamos na pré-produção de nosso novo disco e gravamos uma faixa no 10 Horas no Estúdio, do Trama. Ainda estamos pensando a melhor forma de difundi-la, mas logo logo ela deve estar na rede.
A entrevista foi originalmente publicada no Bloody Pop e chega com atraso no Drops.

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