25 maio 2009

Entrevista - Pullovers


Em inglês a expressão “pull over” quer dizer estacionar, encostar. Coisa que os paulistanos do Pullovers não fizeram ao longo desses 10 anos de vida.
Nascida em 1999, dentro da cabeça de Luiz Venâncio (único remanescente), o Pullovers já começou com o pé direito gravando a seu primeiro disco com Adriano Cintra, o homem do CSS. Pullovers cant play covers trazia um Pullovers com claras influências de bandas como Pavement. Influências que os seguiram até o terceiro disco, Carniça (2005), gravado com a modelo Geanine Marques.
No quarto álbum, Tudo o que eu sempre sonhei, Luiz resolveu deixar o inglês de lado e passou a escrever em português. Mesmo ainda sendo conhecida como a banda mais fofa do mundo indie brasileiro, agora com letras que podem ser facilmente entendidas por qualquer um, os Pullovers parecem ter ficado ainda mais.
Algumas canções chegam ao pop “extremo” com letras grudentas, como “O amor verdadeiro não tem vista para o mar” (uma das músicas gravadas no Música de Bolso). Já outras podem soar como um discurso bem elaborado, caso de “Tudo que eu sempre sonhei” e/ou “Marcelo ou Eu traí o rock”.

Hoje, além de Luiz Venâncio, o Pullovers é Rodrigo Lorenzetti nos teclados, Bruno Serroni no baixo, Angelo Lorenzetti na viola, Gustavo Beber na bateria e Habacuque Lima, que também faz parte do Ludov, na guitarra.

Depois de me deparar com este disco, procurei o Luiz Venâncio para fazer uma entrevista com a gente. O resultado desta conversa via e-mail, vocês conferem logo aí embaixo.


Drops Cultural: O quarto álbum de vocês, Tudo o que eu sempre sonhei é o primeiro com composições em português. Em entrevista ao Trama Virtual, você disse que “não seria honesto” continuar compondo em inglês. Você pode explicar melhor para gente o porquê?
Luiz Venâncio: Porque simplesmente acabou a vontade de compor em inglês. Pluft! Acabou.

Drops Cultural: Como é o processo de composição de vocês? Sei que muitas músicas são escritas por você, mas temos mais compositores na banda? E quando alguém chega com uma letra, todos dão o seu “pitaco” para compor a melodia?
Luiz Venâncio: Na verdade, o processo de composição em geral parte das músicas pra depois chegar à letra. São raras as exceções, como em “Lição de Casa”, que está no disco. Esta eu fiz a letra e depois musiquei. Mas geralmente é o contrário: alguém (eu ou outro – o Rodrigo, tecladista, por exemplo) faz a música e depois eu coloco a letra.

Drops Cultural: Com o passar do tempo, as músicas do Pullovers foram ficando mais tranquilas. Li por ali, que é até por você ter ficado mais velho. Neste quarto disco, as músicas ganharam ares mais “MPBistas”, de bandas como Los Hermanos. Vocês já foram taxados de cópia (ou cria) do grupo carioca? Ou isso é apenas coisa de quem não conhece o trabalho de vocês?
Luiz Venâncio: Não condeno quem diz que “parece Los Hermanos”. Afinal os caras se tornaram a principal referência histórica deste tipo de música. Nem tanto pra nós, que temos muitas referências em comum com eles e obviamente os admiramos, mas principalmente pros ouvintes. Então às vezes aparece essa opinião a partir de uma primeira impressão. O que acontece sempre é que uma audição um pouco mais cuidadosa esclarece as enormes diferenças. Em primeiro lugar, no tipo de poesia. De uma certa forma, temos um pouco a linguagem dura (com momentos de lirismo desenfreado que explode parecendo quase não ter lugar) da nossa cidade, São Paulo. Poeticamente e musicalmente também. Eles, obviamente, têm uma delicadeza, suavidade e jeito de dizer as coisas próprios de quem vive o Rio (e No Rio). Sei lá, é meio tosco-simplista essa divisão geográfica-cultural, mas pode ser esclarecedora.


Drops Cultural:
Na entrevista para a Mondo 77, você diz que seria estranho continuar fazendo o mesmo trabalho do começo de carreira. O que é uma coisa óbvia, já que todos temos que crescer um dia. Mas como se deu o seu amadurecimento musical? O que você deixou de escutar? O que você descobriu? (Isso inclui literatura e filmes também, que possam ter te influenciado).
Luiz Venâncio: Ah, deixei simplesmente de escutar o que escutava há 10 anos atrás, o que como você disse é totalmente normal. Como diria a vovó, quem fica parado é poste. O que eu descobri: outra obviedade: os... CLÁSSICOS. Atenção para o momento panfletário-professoral: juventude, leia os clássicos! Ouça os clássicos! Assista os clássicos! Na literatura, no cinema, no teatro e, claro, na música. O que não necessariamente significa ouvir Mozart ou Schubert. O Maestro Jobim é um clássico também.


Drops Cultural: Agora, sobre o futebol. Da onde surgiu essa sua paixão?
Luiz Venâncio: Ah, agora você tá falando do que vale a pena! Senta aí e abre uma cerveja! Então, veja você: do futebol veio meu grande feito esportivo: fui, jogando de goleiro, vice-campeão paulista na categoria “Fraldinha” (8 anos). Vice. Quase um Rubinho Barrichello dos gramados. Queria inclusive deixar aqui a minha homenagem ao Rubinho. Gostar do Rubinho é encarar a vida como uma epopéia, saca? No caso, protagonizada por um anti-herói. É como gostar do Corinthians. Veja o nome do time: vem de Conríntios! É grego, é bíblico também. É a pura tragédia grega! O corintiano é a tradução máxima do paulistano: força, sofrimento, uma doçura desconcertada e, às vezes (mas só às vezes), a redenção e a vitória no final.


Drops Cultural: Além do futebol, outra influência clara nas músicas deste Cd é a cidade de São Paulo. Você viveu a vida toda lá? Ou escreveu as músicas em algum momento de saudade?
Luiz Venâncio: Sempre vivi em São Paulo. Acho que isso fica claro no que eu escrevo... Nos meus S, nos meus R, em tudo o que eu falo enfim... Até nas minhas neuroses. Somos 4 paulistanos típicos na banda. As duas exceções são Habacuque, brasiliense, e Gustavo, de Barra Bonita (interior de São Paulo).


Drops Cultural: Quem é Marinês?
Luiz Venâncio: São todas as boas moças que eu vejo no metrô saindo da Zona Leste pra ir trabalhar no centro ou na Paulista, de scarpin, terninho, às vezes vestidas mais casualmente também... Vou inverter o que disse o Caetano: elegância indiscreta em vez de deselegância discreta. Lindas, acho todas muito doces e sonho que todas sejam felizes e encontrem seus “manos”, tão doces quanto elas. Aliás, precisamos compor a versão masculina também. Quem sabe o namorado da Marinês não é um típico corintiano? Que se dá bem no final?

Drops Cultural: O Pullovers não é uma grande banda no âmbito nacional, mas no meio alternativo/independente, vocês são só elogios. Como é estar tanto tempo no mercado e não “estourar”? E como se manter tanto tempo no mercado?
Luiz Venâncio: Não sei... É difícil responder “como é ser assim”. Aprendi uma palavra nova outro dia: “tautológico”. Então eu digo: ser assim é... ser assim.

Drops Cultural: Em entrevistas com outras bandas, pelo menos as mais antigas, sempre ouvimos que o meio independente se profissionalizou. Conta como você vê este novo mercado. Uma banda independente consegue hoje viver só de música ou não?
Luiz Venâncio: Claro que não. Quase ninguém consegue, mesmo quem é muito mais conhecido do que nós.

Drops Cultural: A pergunta que não quer calar e que nós sempre fazemos aos entrevistados. O CD é independente, mas está saindo pelo selo Pisces Records e está para download no perfil de vocês no Trama Virtual. Por que a escolha de um selo? O CD também era sua versão física?
Luiz Venâncio: Ah, escolhemos o selo porque ele nos fez uma oferta para lançarmos o cd fisicamente e topamos, simples. Mas acho que realmente hoje em dia talvez seja até mais importante do que o cd “físico” as faixas estarem na Internet.

Drops Cultural: Você conhece alguma banda de Brasília?
Luiz Venâncio: Claro, várias. Inclusive temos um especialista na banda, o brasiliense Habacuque. Por isto nem vou citar ninguém, deixo a resposta pra outra ocasião (e pro especialista).

Drops Cultural: Não sei se vocês já vieram por aqui, mas há alguma expectativa em tocar por aqui? Ou as pessoas terão que se contentar com os shows em São Paulo?
Luiz Venâncio: Nunca fomos. O mais perto que eu cheguei foi Goiânia. Espero que possamos tocar aí em breve. Mas, por enquanto, nada marcado ainda.

Drops Cultural: Uma pessoa que nunca ouviu o Pullovers deve começar por qual disco?
Luiz Venâncio: Olha, eu sinceramente gostaria que começasse pelo último. E se não for possível, que não deixe de escutá-lo pra ver o que temos nos tornado.


O que dará o salgueiro? (Trama Virtual)

Entrevista divulgada também no site Bloody Pop.

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